Daqui do chão em que piso – reflexões sobre a vida no Sertão Mineiro

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Laurinda Pereira Chaves – Ribeirão Santana, Araçuaí – Vale do Jequitinhonha – MG – Fotografia de Lori Figueiró

O Vale do Jequitinhonha é território sagrado para o seu povo. Quem aqui nasce, traz no sangue, a marca da esperança. Um Povo, em sua grande maioria, constituído de uma gente simples, acolhedora, sertaneja.

Gente lutadora que ainda tira da Mãe-Terra o sustento diário para si e para os fregueses (do lugar ou visitantes) que todos os sábados se encantam e se deliciam com as especiarias vendidas e permutadas nas feiras-livres da região. Farturas! Uma gente de mãos calejadas, peles queimadas pelo forte do sol e de sorriso amplo, largo e verdadeiro. Uma gente honesta, trabalhadora e solidária. Gente humilde que vem aprendendo a conviver com as adversidades climáticas do Semiárido e mesmo nos fortes períodos de estiagem, consegue produzir e, assim, fortalecer a agricultura familiar.

Em cada lar, por demais simples que seja, tem-se o brilho no olhar de seus anfitriões que se alegram em poder receber. Num dedo de prosa acompanhado com um bom e quente cafezinho, um mundo que se abre. Mesmo na intemperança das condições climáticas naturais e típicas das regiões semiáridas, o povo sertanejo encontra no fazer de diversos ofícios e nas manifestações de cultura popular, uma razão para seguir e prosseguir. Um povo alegre que segue firme e orgulhoso de pertencer a uma região que, apesar do descaso das autoridades públicas e políticas, resiste.

Por muitos anos, o Vale do Jequitinhonha foi conhecido como o Vale da Miséria ou o Vale da Fome.  O estigma da pobreza, na verdade, esconde uma má vontade política e ao mesmo tempo um interesse politiqueiro que impede ou dificulta o acesso às políticas públicas, que se bem implantadas e geridas, emancipariam o povo desta e de quaisquer outras explorações.

Sim, o discurso da miserabilidade ainda gera votos e é por isso que durante anos, o Vale se vê nessa condição de abandono, porque, assim, é mais fácil usar do discurso de combate à seca e ter garantido o voto. Voto muitas vezes, depositado na esperança de que as coisas melhorem. É essa má vontade política para o Vale, que, diferentemente da realidade climática natural, força homens e mulheres à migração sazonal. É essa mesma má vontade que também obriga jovens a deixarem seus lares em busca de melhores oportunidades e bons estudos. É essa má vontade que afasta para longe outros jovens de suas famílias e, uma vez distantes de suas gentes, de seus costumes e hábitos, ficam cada vez mais perdidos. É esse discurso eleitoreiro que quando não escraviza, tira do povo a sua identidade.

A miséria e a pobreza do Vale são de cunho político. Há sim, muitas questões que nos desafiam, mas a solução para elas passa pelo fator político que sim, ainda é um entrave porque nos falta conhecimento e formação política capazes de frear e impedir tais manipulações politiqueiras que impedem o Vale de crescer, de evoluir.

Temos fome é de justiça, de formação, de trabalho e de boas oportunidades. E ainda assim, mesmo diante de tanta negação, seguimos felizes. Felizes e com esperança. E é para essa força acolhedora, resistente teimosa e sempre esperançosa que volto o meu olhar e peço a atenção de vocês que com generosidade me dão o prazer dessa leitura.