Travessia pelos Confins – Crítica a Nos Confins do Confinamento.

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E como puderam ser tão cruéis a ponto de pedirem, sabendo que eu não poderia negar, que fizesse um comentário sobre a obra-catálogo de uma exposição que, por certo, está por vir?” – Crítica a Nos Confins do Confinamento por Claudio Carvalho.

Em carta aberta, o Poeta, Escritor e Professor Universitário, Claudio Carvalho, produz intensa crítica à recente publicação da Editora Alpheratz, o livro Nos Confins do Confinamento.

Nos Confins do Confinamento

Fiquei diante de Nos Confins do Confinamento: a poética dos passos e das horas, de Pedro Machado e Leonardo Perin, da maneira como me senti defronte aos primeiros dias da pandemia causada pelo COVID-19. O que as verdadeiras obras de arte e as grandes catástrofes têm em comum? A capacidade de nos deslocarem do torpor cotidiano e nos lançarem em um estranho mundo. Mundo estranho que, no entanto, sempre esteve ali. Quer dizer, aqui. É a esse sentimento que Freud se refere em O estranho (1919): uma espécie de angústia que é acionada pelo retorno de algo familiar que foi recalcado.

Claudio Carvalho
Claudio Carvalho

Nossos passos confinados às horas, nossa trajetória aflita pelo formigueiro de excitações, nossas marchas forçadas através do chiaroscuro de dor e prazer, indo de um lado ao outro da agridoce sensação de não se saber bem o que está dentro e o que está fora de nós. Tudo isso, incluindo a morte, da qual sempre soubemos, mas, que evitamos encarar.
Aparecem, então, um pequeno opúsculo como este ou um diminuto organismo como um vírus e nos obrigam a encarar toda a nossa precariedade… e beleza. Sim, beleza! O que há de mais admirável em nós é nossa efêmera condição. Como seres tão frágeis como o Leonardo e Pedro são capazes de produzir tanta beleza?

E como puderam ser tão cruéis a ponto de pedirem, sabendo que eu não poderia negar, que fizesse um comentário sobre a obra-catálogo de uma exposição que, por certo, está por vir? Sim, eu me vi atravessando, com meus próprios pés, esse caminho do claro da vida normal para o escuro da vida real. Não há palavras que devam macular essa experiência. Não é que eu não possa dizer nada, não é que me faltem palavras, de fato elas sobram. Um homem como eu, diante do espanto, precisa elaborar palavras para não se submeter ao desassossego da pandemia, à exaltação de Nos Confins do Confinamento. Então, não é que eu não possa dizer nada: eu não deveria dizer nada. Entretanto, no futuro, desejo produzir um escrito crítico sobre essa manifestação remoçada de nossa barroca alma brasileira.

Mas, pedido de amigos – e tão valorosos – não se recusa. Há também a vaidade pessoal de desfrutar, assim de perto, do encanto das imagens do Leonardo e da graça das palavras do Pedro. Por isso, escrevi o texto que vocês têm aí. Que essa travessia por momentos tão escuros nos suscite agarrar com firmeza e apetite a cada segundo de cor que a vida nos der. E ela há de dar!


Claudio Carvalho
24/06/2020